Vou te contar um enredo…

 

Muita gente fala de carnaval como sinônimo das escolas de samba... Grave engano!... O carnaval carioca é muito mais do que as escolas de samba, mas não podemos negar sua importância na divulgação da folia carioca.

Eu mesmo sou um que adoro o carnaval de rua, os blocos, a Avenida Rio Branco, as praias com as ondas embaladas pelos blocos que passam por elas... Mas tenho muita dificuldade em dissociar carnaval de escolas de samba... Alguém que acompanhe minha coluna duvida de minha paixão pelas agremiações?... Creio que não...

Mas para entender um pouco da magia de cada uma delas, há que se pensar numa figura muito importante: o carnavalesco. Mas... O que é um carnavalesco? É uma figura talentosa, sim, bastante criativo, com bom gosto e conhecimento sobre estéticas artísticas. Mas vou além: Ele precisa de ter a visão geral de todo o processo de confecção de um carnaval; Precisa, para que seu trabalho tenha êxito, de uma visão cultural abrangente. Uma simples pesquisa nunca será o suficiente para desenvolver um bom carnaval... Ah! É claro que este profissional precisa gostar de carnaval... Cultura geral e visão carnavalizada são itens muito importantes para o bom desenvolvimento de um enredo, aproveitando suas riquezas na construção da sinopse, na concepção de fantasias e alegorias.

Considerando isso, vai dizer que um carnavalesco não é uma figura importante para o sucesso de um desfile? Importante, sim... mas não o único responsável... Toda uma equipe é envolvida num processo coletivo de construção.

Uma construção que acontece em duas frentes: Uma visual e outra auditiva. Uma vez ouvi Maria Augusta (Grande carnavalesca e estudiosa da matéria) comentar durante as transmissões do desfile que essa divisão entre visual e auditivo definem um bom desfile. Como assim?... Vejam como ela simplificou: Um cego, diante de um desfile, sentindo o som e percebendo a letra do samba, deve entender o enredo... Da mesma forma que um surdo, observando a passagem da Escola, deve conseguir ler o enredo! Bom isso, não é? Mas sigamos: Esta leitura audiovisual parte de um enredo forte com uma sinopse que favoreça toda a criação! Alguém duvida?

Julgo complicado um bom samba sair de uma sinopse confusa ou pouco elucidativa do enredo... Bem como penso ser bastante complicado estruturar um desfile (Fantasias e alegorias) se a sinopse for pobre demais em informações... Um bom enredo é um belo começo para uma boa sinopse (Mas não a garante...). Bem como uma boa sinopse é um belo começo para um samba-enredo e um roteiro de desfile, mas não os garante também!

Além disso, é claro que há desfiles e desfiles, propostas e propostas, grupos e grupos: Esperar a mesma complexidade de um enredo para o Grupo Especial em relação a outro para o Acesso B é um surto! Pela estrutura de desfile, pelo tempo de desfile, pelo quantitativo de componentes e alas... E mesmo dentro de um mesmo grupo, o especial, por exemplo, há as agremiações que lutam pelo título, há as que cumprem tabela... Mas há aquelas de lutam para se manter!

Voltando ao enredo... Há enredos do tamanho exato da escola e de seu grupo de desfile. Há erros estratégicos: Enredos grandes demais para o ‘poderio’ da escola, assim como há enredos pequenos demais para a força e tradição de uma agremiação... Mas de qualquer forma, um bom enredo é um bom enredo e pronto! Mas milagres acontecem! Raramente, mas acontecem... rsrsrs. Vejam esse enredo fabuloso da Acadêmicos do Cubango, de 2010: Segue o link! Sinceramente, a melhor sinopse que li nos últimos tempos...

E vejam a preciosidade de samba que nasceu da sinopse:

Cubango 2010
Cubango 2010

Os Loucos da Praia Chamada Saudade
(Carlinhos da Penha, Diego Nicolau, Dílson Marimba, Jr. Duarte, Raphael Prates e Sardinha)

O trono enlouqueceu
Essa epopéia decifre ou lhe devora
O palácio se ergueu no toque do marquês
E o monarca nessa zorra deita e rola
Insano que sou, viajei
E vi a beleza maquiar a clausura
Os loucos de pedra fazendo a história
Camisas de força tolindo memórias
E a nova banana, tremenda baderna
Mais doido é o povo ou quem te governa?

Tá lotado de maluco... Fechou!
Assombrado, o artista pintou
Já é hora da virada nesse surto imaginário!
Tô por conta do cenário, sou um louco sonhador

Renasce das cinzas pra vida
Bossa nova, um hino contra a opressão
Em uma nudez incontida
Da dura que dita, sangrando a nação
Clareia minerva assanhada
Ergui a bandeira nas diretas já
Pra ver meu país mais feliz
De cara pintada, eu fui protestar
E o meu Brasil pinel desperta pra folia
Sambando no raiar de um novo dia

É mais que paixão, beirando a loucura
Vesti verde e branco, ninguém me segura
Cubango encanta e traz liberdade
Aos loucos da praia chamada saudade

Outro enredo absolutamente encantador, uma sinopse muito bem escrita, vem de uma das escolas de samba mais tradicionais: Estácio de Sá. Vamos dar uma lida... O desfile foi emocionante: Ver os estacianos às lágrimas de alegria em cantar a própria paixão... Num samba empolgante!

Estácio de Sá 2010
Estácio de Sá 2010

Deixa Falar. A Estácio é Isso aí! Eu Visto esse Manto e vou por aí...
(Claudinho Vagareza, da Latinha, Gusttavo Clarão, Igor e Thiago Daniel)

“Ê, favela!
Da batucada, do meu grande amor
Eu sou malandro e faço história
Na zona do mangue onde tudo começou
Nascia em forma de oração
Nas mesas do café, uma canção
Bambas que o berço do samba um dia embalou
Versos de Ismael, "Se você jurar"
Te dou em poesia, "A dona do lugar"
Vai minha inspiração... Deixa Falar

Eu vou, "Bem junto ao passo"
Bem no compasso da marcação
Eu sou do "velho Estácio"
E se morrer é de emoção...”

Seguir esse passeio pelo universo de sinopses e enredos pode nos jogar numa história sem fim... Citei esses dois, poderia citar outros muitos! Os Jegues da Imperatriz sempre me encantam (Que pesquisa histórica...); Pedro I narrando, com seu olhar infantil, a chegada da família real (Criatividade pura da Lins Imperial em 2008), algumas homenagens a personalidades... Isso sem falarmos dos enredos tema que vem se tornando especialidade da Unidos da Tijuca.

São muitos caminhos a seguir nesta construção carnavalesca. Tudo é válido desde que bem justificado!

Alguém duvida que Machado de Assis e Guimarães Rosa são enredos naturalmente prontos?... Pois é: Não aconteceu e resultou numa sinopse cheia de equívocos que chegou a ser recolhida e refeita... Mas a gênese do desfile ruim gerou um resultado caótico...

E em 2012, o que teremos?

No Grupo Especial:

  1. Renascer e Mocidade (Vitor Meireles e Portinari) – Adotar a arte como enredo exige apuro estético e cromático: Forma e conteúdo do desfile devem estar relacionados a forma e conteúdos do artista e suas obras... Ou dá em nada!;
  2. Portela, Imperatriz, Beija-Flor, Salgueiro e Tijuca (Bahia, Jorge Amado, Maranhão, Cordel e Luiz Gonzaga) – O Nordeste em massa passará na Sapucai! Garantia de cor, fitas, folclore... Uma forte matriz cultural brasileira largamente revisitada. Na minha modesta opinião: deste grupo sai o título!;
  3. Vila e Ilha (Angola e Londres) – Claro que com olhares de diferentes sobre culturas absolutamente distintas. Mas é o toque de internacionalidade, embora a relação fora-Brasil se estabeleça em ambos os enredos. ‘Quizomba’ já foi e nunca se repetirá... ‘Sou mais minha Ilha’ merece bis?;
  4. Porto, São Clemente e Mangueira (Leite/Iogurte, Musicais e Cacique de Ramos) – Vejo pouca identificação. Nem sempre patrocínio garante sucesso, mas entendo que sem dinheiro não dá! Os musicais da Chanchada podem retomar o humor Clementino: Torço por isso! Cacique na Mangueira?... sei não! Mas temos que admitir: Mangueira é sempre Mangueira!;
  5. Grande Rio (Superação) – pode ser bacana? Pode!...Mas me soa apelativo.

Acesso A: (Sinto cheiro de briga feia na classificação!)

  1. Tuiuti, Estácio, Viradouro, Império Serrano e Cubango (Clera Nunes, Luma de Oliveira, Nelson Rodrigues, Ivone Lara e Barão de Maua) – Parece que todas apostaram na tendência revelada no último carnaval: Homenagem a pessoas dá titulo!... Deu. Dará?... Fica notório que uma das escolhas é muito infeliz! Aquém de tudo que se possa imaginar em termos de representatividade cultural, em termos de identificação... Não tenho dúvidas: daí sai o título! (assumi risco, heim!...rsrsrs)
  2. Rocinha e Inocentes (Praças e Corumbá) – Me parecem enredos de cumprir tabela... Sem força para título, mas com certa dose de susto! As praças podem cair no lugar comum: Finalizar o desfile na apoteose (Praça do carnaval...rs), por exemplo. E Corumbá é índio?... E mais índio?... Mas parece que esta escola caiu nas graças dos jurados... Isso é bom para ela!
  3. Império da Tijuca (Utopias) – Pode ser tudo, pode ser nada... Gosto da força desta agremiação... Gosto da ala de compositores... Sabe desfilar... Mas este enredo vai depender diretamente do samba e das fantasias que, em união, proporcionarão uma boa ou má leitura do desfile!;
  4. Santa Cruz (Radialistas/Rádio/Antono Carlos) – Enredo comum de um lado e popular de outro. Me parece uma boa mistura para uma escola sem grandes pretensões mas que raramente corre riscos! Se estiver estruturada, pode dar trabalho no topo da classificação.

Ficarei devendo o Acesso B. Juro que não é descaso ou preconceito... Mas quero dedicar uma coluna especialmente a este grupo... Em breve!

Bem, assumi riscos nos comentários? Sim!... Mas e daí? Só queria desenvolver te contar esse enredo... rs

Beijos,
Até a próxima,



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5 Comentários para o post “Vou te contar um enredo…”

 

 

  1. Marcia disse:

    Esse universo maravilhoso das escolas de samba foi vc que me aprensentou,e isso sei que vou levar pro resto de minha vida.
    Assistir um desfile como leigo te garanto que é muito mais fácil do que quando voce começa a entender todas aquelas coisas que o envolve,desde a sinopse a´te chegar na avenida e isso foi voce quem me ensinou.
    Sei que tudo é feito com muito suor e garra,e também conheci toda a magia e amor que rola dentro de uma quadra e um barracão,para no final ser aquela explosão de sensações em cada componente e em cada expectador, seja em casa ou na Sapucaí.
    Portanto meu amigo só tenho que parabeniza-lo,por mais essa matéria bacana que escreveu e agradecer por tudo que voce traz para nós atraves dessa coluna e de sua própria experiencia no samba!
    Beijo grande e sucesso!!

  2. Alexandre Federici disse:

    Muito bom, Elidio! Adorei o texto sobre o carnavalesco, e assino embaixo das suas apostas de título.

  3. Paulo Henrique disse:

    Viajei no pensamento quando o amigo começa a falar sobre o carnavalesco. Conheço muitos carnavalescos que não são criativos, não são talentosos, nunca desfilaram, não sabem o que é vestir um trambolho que eles cismam de chamar de fantasia...enfim hoje destaco o Renato Lage como carnavalesco e o resto vem muito atras...

    • Elidio Jr disse:

      Renato é realmente muito bom!!! Gosto demais das criações dele e já assisti desfiles fantásticos elaborados por ele e sua equipe... Pensar no componente é coisa para poucos, Paulo... A maioria, hoje, quer o espetáculo visual e o componente que se dane se está confortável ou não...

    • Elidio Jr disse:

      Se bem que... se o componente aceita e se submete...deve estar gostando, né?...

 

 

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