Moacyr Luz E Samba Do Trabalhador Ao Vivo No Renascença Clube (2013)

Gravadora: Lua Music - Ano: 2013

Álbum completo - 16 faixas - 58 min

Álbum: Moacyr Luz E Samba Do Trabalhador Ao Vivo No Renascença Clube (2013)

  1. EU SÓ QUERO BEBER ÁGUA
    (Moacyr Luz)

    quando o samba chegou
    na curva de um rio que passou
    foi o mar roçando a pedra
    tanto cantou, noite alta
    que o galo serenou
    e uma voz anunciou, meu “sinhô”
    eu só quero beber água

    e assim o tempo passou
    fez poeira pro ganzá
    fez a lua pratear
    fez o som da revoada
    tempo passou, noite alta
    que o galo serenou
    e uma voz anunciou, meu “sinhô”
    eu só quero beber água

    e tudo cantou
    o vento no meio da mata
    veio me chamar
    eu nasci daí,
    eu só quero água

  2. BENZA, DEUS
    part.: Marcelinho Moreira
    (Moacyr Luz / Luiz Carlos da Vila)

    benza Deus!
    que chegou bem na hora “aga”
    agora é você e eu
    a demanda ficou pra trás
    não tive nada a ver com o que aconteceu
    se foi pra doer, doeu
    agora é viver em paz

    tanta maldade
    da gente que faz intriga
    que vai provocando briga
    causando amolação
    até disseram
    que eu tinha alguém no samba
    a corda e uma caçamba
    andando na outra mão

    sai pra lá, sai pra lá
    já bateu o tambor
    não há mandinga na ginga do nosso amor

    vieram pra mim de barba de bode
    e eu de comigo ninguém pode
    fiz o mar desaguar no chafariz
    pra confirmar fui na onda do esguleba
    aroeira e jurubeba
    pra cortar o mal pela raiz.

    sai pra lá… sai pra lá…

  3. SAMBA DOS PASSARINHOS
    (Moacyr Luz / Martinho da Vila)

    um passarinho me disse
    que vamos viver pra sempre um grande amor
    canário livre cantou, cantou, cantou, cantou feliz
    um bem-te-vi que ouviu
    “bentevitou” com o seu amigo tiziu
    um pintassilgo se alçou e foi piar bem juntinho da perdiz
    logo que entardeceu, galinha cocorocou
    canto de galo ecoou, de longe um outro respondeu

    um corpo ardente riscou o céu e o pedido que eu fiz
    foi para ser sempre seu, só seu, só seu, só seu, só seu
    vamos sonhar bem juntinhos, levando a vida a cantar
    e como dois passarinhos, voar, voar, voar, voar

  4. PRA QUE PEDIR PERDÃO?
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc)

    se é pra recordar dessa maneira,
    sempre causando desprazer,
    jogando fora a vida em mais uma bebedeira,
    ó, sinceramente, é preferível esquecer
    eu te prometi mundos e fundos
    mas não queria te magoar
    eu não resisto aos botequins mais vagabundos
    mas não pretendia lhe envergonhar
    (marquei bobeira…)

    vi muitas vezes o destino, ir na direção errada
    e a bondade virar completo desatino
    a carícia se transformando em bofetada
    ah, eu sou rolimã numa ladeira
    não tenho o vício da ilusão:
    hoje, eu vejo as coisas como são
    e estrela é só um incêndio na solidão
    se eu feri teu sonho em pleno vôo
    pra que pedir perdão se eu não me perdôo?

  5. SOM DE PRATA
    (Moacyr Luz / Paulo César Pinheiro)

    nasceu no Rio de Janeiro
    no dia do santo guerreiro
    naquele tempo que passou
    foi o maior mestre do choro
    tinha um coração de ouro
    e que bom compositor
    foi carinhoso e foi ingênuo
    e na roda dos boêmios
    sua flauta era rainha
    e em samba, choro e serenata
    como era doce o som de prata, doutor
    que a flauta tinha
    o embaixador dessa cidade
    meu Deus do céu, mas que saudade que dá
    do velho Pixinguinha

    veio da terra de Zambi
    sangue de malê
    de uma falange do rei Nagô
    filho de Ogum, de São Jorge, no batuquegê
    de benguelê, de iaô
    rainha ginga
    é que sua avó era africana
    a rezadeira de Aruanda, vovó
    Vovó Cambinda
    só quem morre dentro de uma igreja
    virá Orixá, louvado seja senhor
    meu santo Pixinguinha

    ele é de benguelê
    ele é de iaô
    é do batuquegê
    ele é do rei Nagô
    é sangue de malê
    é santo sim senhor

  6. RAINHA NEGRA
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc)

    a idade da sereia
    o baticum de pé no chão
    chuá de cachoeira…
    o mito, o rito ritmam a respiração
    tantãn e atabaque
    a gargalhada do ganzá
    o canto do trabalho
    a dança, a ânsia sagrada de rememorar

    o juro do negreiro
    o açoite pardo do feitor
    e um clarão enganador
    a liberdade sonhada ainda não chegou
    saúdo os deuses negros
    da serra-mar céu de quelé
    pro povo brasileiro
    rainha negra da voz, mãe de todos nós

  7. O CHÃO AZUL DE MADUREIRA
    (Moacyr Luz)

    rodei o mundo e perguntei:
    Madureira onde é que fica?
    da Portela alguém falou,
    vai na casa da Surica

    não tem como errar o caminho
    pergunte a Argemiro que ele indica (vai)
    sem vacilar,
    é na casa da Surica
    mas vê se chega devagar
    que é na casa da Surica

    num pedacinho do céu
    a águia voa
    é daí que vem a luz
    que rebrilha e conduz
    essa pastora
    o azul que tem nesse chão, já não se explica
    é o manto que protege
    os caminhos da casa da Surica

  8. QUE BATUQUE É ESSE?
    (Sereno / Moacyr Luz)

    eu falei pra você que o batuque é esse
    no fundo do meu quintal
    eu falei pra você que o batuque é esse
    no fundo do meu quintal
    andei a pé na Bahia
    mareei no Maranhão
    benzi filho de Maria
    fiz fogueira em São João
    depois num samba de roda
    alguem fez recordação
    se o batuque tá na moda
    começou na minha mão
    eu falei pra você…

    ouvi de Jesus Menino
    que folia era de reis
    São Jorge desceu quintino
    e pediu a sua vez
    quando a vida de acomoda eu me lembro do dragão
    se o batuque está na moda
    começou na minha mão
    eu falei pra você…

    por volta do meio-dia
    troquei pele do pandeiro
    conselho da minha tia
    cuida bem do teu terreiro
    ve se tem roupa na corda
    deixa o céu tocar no chão
    se o batuque está na moda
    começou na minha mão

  9. VOCÊ NÃO PARECE MAIS VOCÊ
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc)

    todo dia você me avalia e diz que eu mudei
    onde foi que eu errei?
    tento fugir do meu samba você me esculhamba
    diz que eu tentei ser bamba, mas falhei
    no vento que venta lá, preciso te dizer
    que também não sei quem é você

    faz tanto tempo, que tento entender você
    você me olha, e nada de ver você
    a luz da minha saudade queima sem saber
    te abraço sem achar você
    olha no meu coração que insiste em renascer
    faço tudo pra encontrar você

  10. ANJO DA VELHA GUARDA
    part.: Makley Mattos
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc)

    o terno branco parece prata
    a fita em meu peito diz que eu sou
    daqueles que vão pra maracangalha
    rever Anália, eu vou…
    vento que leva o chapéu de palha
    também sou de fibra e de pau-brasil
    samba é tudo que sei
    e momo é o único rei que amei

    sou a sétima corda que passo devagarinho
    com rodouro no coração
    meu nome em letras de ouro
    é parte do tesouro de qualquer agremiação
    de cuíca eu manjo
    também vou de banjo
    fiz das avenidas meu salão…
    fidalguia esbanjo
    e danço com meu anjo
    eu sou da Velha Guarda, meu irmão!

  11. QUANDO SE É POPULAR
    part.: Moyseis Marques
    (Wilson das Neves / Moacyr Luz)

    sei que falaram de mim
    como falam de mim é um tal de: me diz, “quê qui há”!
    eu não sou vaso ruim
    mas o meu tamborim é dificl quebrar, descambar, não
    evito uma confusão
    e dar opinão, qualquer um pode dar. veja lá
    quando se é popular
    tem que ter um andar
    e saber se vestir, e aí
    vim de chapeu panamá
    do império de lá
    me encantar por aqui

    na Mem de Sá, fui de canja
    boa convesa se arranja
    alguem falou no ouvido
    um samba meu
    me deparei comovido
    semente que floresceu
    por isso falam de mim
    graças a Deus

  12. ESTRANHOU O QUE?
    (Moacyr Luz)

    preto pega surf, pega praia, preto pega jacaré
    preto vê vitrine, olha o magazine, compra se quiser
    preto põe sapato, usa pé de pato, porque tem os pés
    come sashimi, bebe champangne e também tem rolex

    estranhou o que?
    preto pode ter o mesmo que você
    estranhou o que?
    preto pode ter o mesmo que você

    preto joga charme, come carne, preto roda de chofer
    anda de avião, craque de gamão, troca de talher
    preto lê exame, férias em Miami, premio molière
    pede uma suíte, roupa de boutique, preto da rolé

    estranhou o que?
    preto pode ter o mesmo que você…

  13. PRAÇA MAUÁ: QUE MAL HÁ?
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc)

    ah, me diz aí; mas que mal há
    em ir lá pra Praça Mauá
    relembrar…
    se eu tô sem brio e estrela guia
    se há no barco uma avaria
    vou pra lá…
    meio adernado meu navio
    retomo o rumo, encontro o fio
    num samba do melhor que há
    meu porto ta lá
    no cais eu ressurjo
    é como se o meier brotasse a beira-mar
    que sacanear, encaro e não fujo
    eu sou marujo da Praça Mauá

    em São Francisco da Prainha eu gostei
    de uma cabocla da pedra do sal
    que, incentivada pela grande Nora Nei
    tentou a vida de cantora ali na Rádio Nacional
    seu nome: Conceição feito a igreja
    fazia um peixe com cerveja
    atrás da Sacadura Cabral
    que João da Baiana
    louco por matizes
    provou com caiana
    depois pulou no mar
    encontrou Netuno
    com três meretrizes
    e foram juntos pra Paquetá!

    - um dia vi Iemanjá!
    - cantando num dancing lá…
    - me diz aí: que mal há
    - em ser da Praça Mauá?

  14. SAUDADES DA GUANABARA
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc / Paulo César Pinheiro)

    eu sei
    que o meu peito é uma lona armada
    nostalgia não paga entrada
    circo vive é de ilusão (eu sei…)
    chorei
    com saudades da Guanabara
    refulgindo de estrelas claras
    longe dessa devastação (… e então)
    armei
    pic-nic na mesa do imperador
    e na Vista Chinesa solucei de dor
    pelos crimes que rolam contra a liberdade
    reguei
    o salgueiro pra muda pegar outro alento
    e plantei novos brotos no Engenho de Dentro
    pra alma não se atrofiar (Brasil)
    Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
    três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
    precisa se regenerar

    eu sei
    que a cidade hoje está mudada
    santa cruz, zona sul, baixada
    vala negra no coração
    chorei
    com saudades da Guanabara
    da lagoa de águas claras
    fui tomado de compaixão (… e então)
    passei
    pelas praias da Ilha do Governador
    e subi São Conrado até o Redentor
    lá no Morro Encantado eu pedi piedade
    plantei
    ramos de Laranjeiras foi meu juramento
    no Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
    pois é pra gente respirar (Brasil)
    Brasil
    tira as flechas do peito do meu padroeiro
    que São Sebastião do Rio de Janeiro
    ainda pode se salvar

  15. VIDA DA MINHA VIDA
    (Sereno / Moacyr Luz)

    vida da minha vida, lua que encandeou
    uma canção bonita, feita pro meu amor
    vida da minha vida ,olha o que me restou
    flores na despedida, versos de um amador

    vida da minha vida, um vento me derrubou
    a alma desprotegida, no peito de um sonhador
    vida da minha vida ,peço ao meu protetor
    se for pra ser vivida, diga pra onde eu vou

    vida da minha vida, se eu fosse sabedor
    deixava mais aquecida, a chama que me queimou
    vida da minha vida, algo me enfeitiçou
    já nem sei mais a medida, é tão avassalador

    vida da minha vida, um vento me derrubou
    a alma desprotegida, no peito de um sonhador
    vida da minha vida, peço ao meu protetor
    se for pra ser vivida, diga pra onde eu vou

  16. CABÔ, MEU PAI
    (Moacyr Luz / Aldir Blanc / Luiz Carlos da Vila)

    o pai me disse que a tradição é lanterna
    vem do ancestral é moderna
    bem mais que o modernoso
    e aí é o meu coração que governa
    na treva é a luz mais eterna
    o todo mais poderoso
    também me disse
    com aquele jeito orgulhoso,
    que o samba é mais que formoso,
    que ninguém lhe passa a perna
    é a marola que vira o mar furioso
    Netuno misterioso
    o tesouro da caverna

    a jura é pra quem rezar,
    a reza é pra quem jurar
    a alma pra sempre é a do criador.
    maré muda como o luar,
    futuro é pra quem lembrar
    se é isso que o pai ensinou…
    cabô.
    cabô, meu pai…
    cabô, ô ô …
    cabô, meu pai…cabô