G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira (Disputa de Samba 2013)

Sambas concorrentes no G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira no ano de 2013, com o Enredo: “CUIABÁ: UM PARAÍSO NO CENTRO DA AMÉRICA” (sinopse no final do post) Carnavalesco: Cid Carvalho.

Ouça a playlist (sequência) dos sambas (finalistas) que permanecem na disputa:

Imagem com o Logo da Estação Primeira de Mangueira

SAMBAS FINALISTAS


  • Samba: 31-F - Lequinho / Igor Leal / Jr. Fionda / Paulinho Carvalho
    Intérprete: Tinga
    VENCEDOR

    Imagem da parceria vencedora no GRES Estação Primeira de Mangueira 2013
    Parceria Vencedora Mangueira Carnaval 2013 - Créditos Ricardo Almeida



    dai-me inspiração, oh pai!
    pois em meus versos quero declamar
    a capital da natureza, eternizar
    embarque na estaçäo primeira
    o mestre a nos guiar
    bambas imortais, o eldorado dos antigos carnavais
    num relicário de beleza sem igual
    fonte de riqueza natural
    cidade formosa… verde… rosa
    teu nome reluz, vila Real do Bom Jesus

    o apito a tocar preste atenção!
    mistérios e lendas de assombração
    segui com coragem, mostrei meu valor
    é a Mangueira a todo vapor

    em cada lugar, um “causo” que o povo contou
    em cada olhar, na arte um poema brilhou
    um doce sabor, tempero pro meu paladar
    procure seu par a festança já vai começar
    na benção de são Benedito eu vou
    dançar com o meu amor, o sonho enfím chegou
    ao paraíso, emoldurado em cintilante céu azul
    bendita sejas terra amada!
    o coração da América do sul
    é hora de darmos as mãos
    agora, seguir a missão
    sustentar na mesma direção

    Mangueira… o trem da emoção
    viaja na imaginação
    meu samba é madeira, é jequitibá
    é poesia dedicada a Cuiabá


  • Samba: 33-E - Alemão do cavaco / Xavier / Pê Baianinho / Rifai
    Intérprete: Agnaldo Amaral



    em verso e prosa
    teu ouro reluz em verde e rosa
    no apito do trem o “mestre” conduz
    os “anjos do bem” nessa viagem
    “chorado” o suor do escravo pingou
    em terra de vila tão bela fertilizou
    assim trilhou o progresso
    e passou a ter visão pantaneira
    mistérios… lendas, herança a desabrochar
    cultura de amor ao lugar
    tchapa e cruz de arrepiar!

    êh… lá vem o cortejo de “Zé Bolo Flor”
    que cheiro gostoso! um doce sabor!
    não chora, não chora não…
    que o pranto em Mangueira é assim
    tem surdo, cavaco, viola

    a arte revela o dom de criar
    de um povo com a pureza no olhar
    na crença, na dança de uma canção
    um só canto a embalar rumo à nova estação
    oh! quanta riqueza! tamanha beleza!
    que a natureza criou
    no paraíso há esperança pelo “ar”…
    e a bola que rola no mundo
    em teu solo também vai rolar, Cuiabá
    acima de tudo Mangueira
    canta a nação mais feliz
    és a mais querida do samba
    bate no peito e diz

    chegou a Mangueira, valente e guerreira
    estação primeira dessa capital
    Cuiabá! tua linda história vai eternizar


  • Samba: 35-G - Erielson Marques / Cleyton Fonseca / Washington Félix
    *** Samba classificado na etapa realizada em Cuiabá



    um sonho de amor, que vem despertar, sou a estação primeira.
    nas lavras “do sutil” a verde e rosa é Cuiabá
    o pé rachado sobe o morro da Mangueira
    vai começar, uma viagem ao paraíso, no centro da América
    o povo a reverenciar, “a mais querida” a desfilar
    descendo a ladeira faz emocionar
    Sapucaí vai tremer, quando a Mangueira passar
    um trem rompendo bandeiras, meu verde vai exaltar
    pelas mãos de Jamelão, maestria deslumbrante
    lindo eldorado que aguçou o bandeirante
    no alto de uma, capela, a fé responde a esse povo hospitaleiro
    onde no passado o ouro ascendeu
    é devoção ao santo negro cozinheiro
    filho de índio eu sou, sou a pepita reluzente deste chão
    em minhas águas “bolo flor”, contou seus versos renegando a servidão

    lá vem lua cheia, sacode a canoa
    meus mitos e lendas, mãe d’água abençoa
    sou timbanaré, a crença de um povo
    vivi martírios e hoje eu quero um mundo novo

    Mangueira, minha escola, minha pele, minha vida
    sobrevoando as matas e o meu pantanal
    prova os sabores que adoçam o paladar
    poemas… de Silva Freire seduzindo a inspiração
    nos meus quintais as folhas, caem em coração
    o meu progresso não sufoca a tradição
    Mangueira, templo de bambas, imponente gloriosa
    transmuta o ontem verde, hoje em verde e rosa
    mãe Bonifácia enaltece a estação… primeira!

    é no rufar desse tambor que a “surdo 1” faz balançar
    tem cururu, siriri e rasqueado no ar…
    é tanta loucura, vibrar com você
    Mangueira, Cuiabá muito prazer!

Imagem da parceria vencedora no GRES Estação Primeira de Mangueira 2013
Apresentação da Parceria 33-E (Créditos - Júlia Meiners)

DEMAIS SAMBAS


  • Samba: 30-E
    FORA DA DISPUTA



    a nação partiu da estação primeira
    é de arrepiar
    riscando os trilhos em verso poesia
    a mais linda melodia
    o mestre faz o povo delirar
    o paraíso hoje é verde e rosa
    muito me encanta a beleza do lugar
    um verdadeiro eldorado
    na passarela vai brilhar

    no garimpo a miscigenação
    antes dó briga flecha espada e facão
    as suas águas o bandeirante conquistou
    mitos e lendas que me fascinou

    é dança, multidão, é festa de santo
    o povo na rua, crença devoção
    chapada onde o sol beijou a lua
    cenário de rara beleza
    a natureza do pantanal
    andei no caminho cheguei ao futuro
    na copa eu sou capital
    sou mangueirense (eu sou)
    de bem com a vida
    nesse carnaval

    o trem verde e rosa… vai passar
    vem pra avenida
    meu amor ver Cuiabá
    embarque na história
    e vem viajar
    nesse embalo a surdo um vai te levar


  • Samba: 30-F
    Intérprete: Luizinho Andanças
    FORA DA DISPUTA



    vem viajar!
    sonhar vencendo fronteiras
    Mangueira, tua voz a nos guiar
    parte da estação primeira
    os trilhos são doces lembranças
    nos olhos, eu levo esperança
    pra ver nascer um povo e sua bandeira
    riquezas enfeitam nossa estação
    seguindo na linha da imaginação
    são mitos e lendas de arrepiar
    histórias do folclore popular

    nas ruas a arte desse chão
    temperando de emoção
    a poesia que se espalha no ar
    sabor que encanta o meu paladar

    a fé seca o pranto, um canto em devoção
    acreditar traz paz ao coração
    é lindo ver tanta beleza
    contemplar a natureza
    moldada pelas mãos do criador
    oh! meu senhor…
    um paraíso singular
    que do amanhã fez seu lugar
    presente em verde e rosa
    vamos juntos num só cantar
    fazer toda nação se orgulhar

    quando o surdo um ecoar…
    chegou Mangueira
    o morro desce pra embarcar
    no trem que leva a Cuiabá


  • Samba: 30-G
    Intérprete: Dudu Nobre / Xande de Pilares
    FORA DA DISPUTA



    Mangueira me chamou…
    deixei a minha mente viajar
    nos trilhos da esperança
    eu vou pra Cuiabá
    cidade verde e rosa
    do sonho à emoção
    declaro em verso e prosa
    sou “tchapa e cruz” de coração
    no tom do mestre e tantos bambas
    o eldorado é meu samba
    tô encantado na janela do vagão
    e no garimpo vejo a miscigenação

    tem mistério nas matas… vou contar
    lendas e “causos” de fazer arrepiar
    e o tesouro que a mãe d´água abençoou
    é a riqueza da cultura popular

    vejam… a vida é uma festança
    vou provar… do saboroso paladar
    a fé… a reza… a procissão
    meu bom jesus… a proteção
    terra do sol… um paraíso.. que beleza!
    a fauna… a flora… a natureza
    águas cristalinas, sob o céu azul
    louvor à obra do criador
    um chão repleto de amor
    no coração da América do sul

    é no balanço desse trem… Mangueira
    abraçando o futuro… sonhei
    é Cuiabá… é estação primeira
    onde a vontade desse povo é a nossa lei


  • Samba: 33-F
    Intérprete: Leonardo Bessa
    FORA DA DISPUTA



    se o nome é samba o apelido é Mangueira!
    seguindo pelos trilhos da memória
    o mestre nos conduz ao paraíso
    em cada estação uma história
    dourada essência do chão
    bandeiras e raças, pela ambição explorar
    rompendo fronteiras, a epopéia se escreveu
    no coração da América a civilização nasceu
    pelas matas lendas vão morar
    rios deságuam em cultura popular
    arte feita à mão enfeita a rua
    tempero com sabor de sedução
    o foguetório anuncia, vai passar a procissão

    meu bom Jesus, peço paz e proteção
    se a fé é forte não há mais porque chorar
    toca a viola, pra estação primeira cantar
    nessa mistura de surdo com ganzá

    abri os portais da Amazônia, vem à janela ver
    Guimarães, relicário da obra divìnal
    tuiuiú voa alto no horizonte
    onde o céu encontra o pantanal
    olhar para frente e ver o futuro chegar
    se reinventar com alma de criança
    pintar de verde a esperança
    mostrar ao mundo nossa alegria
    preservar essa energia e assim
    a jornada nunca vai ter fim

    vem viajar no trem da Mangueira
    tem samba de primeira lá na minha estação
    o sonho vai se realizar
    quando a verde e rosa passar
    o futuro é você, Cuiabá


  • Samba: 34-F
    FORA DA DISPUTA



    com o surdo um na marcação
    dos acordes do meu violão
    embarquei na estação primeira
    o eldorado reluziu no meu olhar
    lendas ouvi que é de arrepiar
    arte se encontra em toda parte
    deliciosas iguarias, temperam o paladar
    a cidade verde e rosa é Cuiabá

    padroeiro, procissão
    promessa, devoção
    chora viola, balança o ganzá
    a festa já vai começar

    nos trilhos dos meus versos
    seguindo a viagem lá vou eu
    encantado com a natureza
    cenário de rara beleza
    cavernas, cachoeiras
    tuiuius, araras vermelhas
    enfeitam o céu azul
    do sol que brilha, pro futuro
    no coração da américa do sul

    vou no balanço desse trem
    cantando um paraíso
    a Mangueira é minha vida
    o ar que eu respiro


  • Samba: 35-F - Renan Brandão / Deivid Domênico / Machado / Mama / Marcus Moniz / Paulinho Bandolim / Rodrigo Pinho
    Intérprete: Gilsinho / Deivid Domênico
    FORA DA DISPUTA



    lá vem, olha o trem verde e rosa
    nessa viagem que me faz sonhar
    no tom da saudade que bate em meu peito
    eu vim do céu pra nos guiar
    embarque em nossa primeira estação
    a festa já vai começar
    seguindo em versos o trilho da história
    encontro um eldorado na memória…
    oh, moça, me serve esse prato
    da arte um retrato, bem mais que sabor

    morena que enfeita a janela
    o trem da Mangueira chegou

    verde esperança que virá
    rosa é o amor por esse lugar
    nos rios e matas por onde passei
    seus mitos e lendas cantei

    vem fazer do samba oração
    oh, meu pai! abençoai a procissão
    a preservar seu horizonte de beleza
    o esplendor da natureza
    que encantou meu coração
    e amanhã… o mundo vai te abraçar
    eu sei… valeu a pena esperar
    pra festejar a minha escola campeã

    o meu sonho maior chegou
    quando o surdo tocar, eu vou
    levar a minha voz do morro a Cuiabá
    Mangueira, sempre vou te amar


  • Samba: 39-F
    Intérprete: Lico Monteiro
    FORA DA DISPUTA



    lá vem a estação primeira
    o trem da Mangueira vai te levar
    quem conduz esta viagem
    é o nosso mestre singular
    pelos trilhos da história
    segue o sonho real
    rumo ao coração do meu brasil, Cuiabá
    chegando ao Eldorado
    descobriu riquezas, civilizações
    atiça a cobiça do invasor
    a nova era, miscigenação

    é mistério é magia, será?
    o brilho em teu olhar…
    é muito mais que amor, um mito popular
    a verde e rosa vai te arrepiar

    dos traços fez a arte
    o dom de encantar
    saborosa culinária adoça meu paladar
    festejos, divina devoção
    ao padroeiro um canto em louvação
    voa tuiuitú no céu azul do paraíso
    obra do criador
    meu samba é raça, amor e paixão
    um grito de gol, mas que emoção
    cidade verde, minha inspiração

    o surdo marcou de primeira
    o povo cantou: Mangueira
    aonde o sol se põe em aquarela
    é Cuiabá a desfilar na passarela


  • Samba: 40-E
    FORA DA DISPUTA



    partindo da estação primeira
    a passarela é o trilho da vitória
    a surdo um vem dar um toque de emoção
    nesta viagem com os anjos da canção
    cidade verde coração do meu Brasil
    onde o garimpo fez a miscigenação
    com pedras preciosas e ouro farto
    o invasor pensou estar no eldorado
    assombrações e lendas, noite sem luar
    a Mangueira vai te arrepiar

    Mangueira declama a sua paixão
    ao sabor, a arte que brota no chão
    festa de santos. vou aportar
    pedir a benção ao padroeiro do lugar

    a fé que lava dor enxuga o pranto
    choram violas, ecoam cantos
    a crença tem lá seus mistérios
    sagrado e profano a se misturar
    de vestes coloridas mascarados vem saudar nova partida
    já sinto marejar o meu olhar
    pois ao portal do paraíso vou chegar
    oh! perfeição, divina mão abençoou a natureza
    teu cenário é uma beleza
    o trem verde e rosa vai pra última estação
    conduzido pelo mestre Jamelão

    além do horizonte está nosso olhar
    o futuro agora é crescer; preservar
    com sentimento de campeão
    sou Cuiabá de braços dados com a nação

“CUIABÁ: UM PARAÍSO NO CENTRO DA AMÉRICA”

Ouçam o apito da sirene que indica que o trem verde e rosa vai dar a partida.
Não cuiabanos! Não se trata da máquina de ferro e aço que há 150 anos é esperada ansiosamente; mas, quando a cortina de fumaça dos fogos de artifício se abrir e a penumbra se dissipar, todos entenderão que o sonho é a verdadeira vitória sobre o tempo. Alegrai-vos cuiabanos de tchapa e cruz1 e de coração. O tempo da espera acaba aqui e agora! Todos a bordo, acomodem-se. Olhem através das janelas de suas almas e vejam, a cada estação, a memória cuiabana em desfile.
Por alguns instantes, deixem-se levar pela imaginação; não como alguém que se perdeu no tempo à espera do trem, mas com a sabedoria daqueles que fazem do tempo o combustível que alimenta a esperança.
Estação Primeira: Mangueira.
O trem está em movimento e os músicos mangueirenses fazem rufar a Bateria Surdo Um. Há uma apoteótica celebração de boas-vindas. Personificado na “lúdica permutação dos nomes próprios em apelidos2″, eis o maquinista dos versos: Mestre Jamelão. O nosso eterno intérprete de sambas-enredo dá o tom à memória dos “gênios anjos mangueirenses”- Cartola, Carlos Cachaça, Zé Espinguela, Nelson Cavaquinho, Dona Zica, Dona Neuma, Mocinha, Xangô da Mangueira entre outros, que, juntos, saúdam e convidam todos os presentes a embarcarem nesta viagem rumo ao “Paraíso no Centro da América”. Partindo da Estação Primeira, o trem mangueirense percorrerá os trilhos da história da “Cidade Verde”, a capital do Mato Grosso, e revelará para o mundo, tal qual o antigo sonho de integração, este deslumbrante rincão fincado no coração do Brasil.
Cuiabá, também conhecida como a Cidade Verde, a partir de agora, passará a ser chamada de Cidade Verde e Rosa!
Estação: Eldorado.
Como se emergisse das cristalinas águas dos rios, com sua imponente farda, “General Saco”, habitante do reino das riquezas, recebe a nossa composição. Celebra nossa presença com a história de fundação de Cuiabá.
Nomes havia muitos para a mesma situação: negro sabre, branco espada, índio tacape, flecha e facão. Mas é no garimpo que se miscigenaram, num só princípio de unidade geral, construindo da geração espontânea de cada célula que se agrega e vai dando subsídios ao nascimento de uma consciente e sólida civilização.
Desbravam o fabuloso espaço fluvial-lacustre habitado por criaturas fantásticas, guerreiros indígenas e enfeitiçados pela farta quantidade de ouro encontrada; imaginam-se no cobiçado Eldorado, um lugar onde tudo era de ouro e pedras preciosas, até mesmo os nativos, os bichos, as flores e as frutas, segundo relatos dos próprios Bandeirantes.

1 Tchapa e cruz é uma expressão regional típica de Cuiabá, que designa o cuiabano autêntico, “puro de origem”.
2 SILVA, Freire. Manifesto Mosaico Cuiabano, 1977.

De invasão em invasão, uma audaz expedição ficou na memória.
Pascoal Moreira Cabral escreve a epopeia da nossa história:
Parte à frente de uma Bandeira
E de Tordesilhas
Rompe a linha divisória…
Descobre ouro às margens do Rio Coxipó,
Funda, em 1719, o primeiro povoado português,
Cuiabá.
Uma só essência! Terra boa e altaneira.
Não importam mais os maus tratos de uma fúria transitória,
Cuiabá orgulha a pátria brasileira, ostentando imortal passado de glória.
Estação: Mitos e Lendas.
Nossa composição segue pela penumbra das matas… Recebidos por “Antônio Peteté”, andarilho de vida pacata e dono de um leque fabuloso, nos conta sobre os causos cuiabanos.
Há muito tempo ouve-se falar na presença de um monstro em forma de serpente, chamado minhocão, que habita o rio Cuiabá. Relatos vão de simples aparições até contatos da embarcação ou táteis com o ser, como tocar a canoa na cobra ou descer em seu lombo, pensando ser terra firme3.
Por esse mundão cuiabano, vaga uma cobra de fogo que assombra as pessoas, conhecida como Boitatá e tem também um velho índio, que se transforma em pássaro encantado ao anoitecer – o Tibanaré. Já nas matas virgens e no cerrado, mora uma criatura que só tem um pé, o Pé-de-garrafa. E se, em uma noite sem lua, você se encontrar com uma mulher vestida de noiva perambulando pelas ruas cuiabanas, afaste-se, porque é o fantasma da Dama de Branco.
Entre lendas e mistérios, quem nunca se arrepiou ao saber, depois de comer a cabeça do pacu4, que uma das suas virtudes é ser casamenteiro?
Ou quem não saiu em busca de novos desafios à procura da perdida “mina dos martírios”? Pois bem, abençoados pela Mãe d’Água, tudo isso faz parte do nosso imaginário popular. É tudo cultura, como em toda literatura, e cuiabana é a sua assinatura.
Estação: Arte e Sabor
Declamando um poema de amor, lembramo-nos dos tempos de menino… “Joga peteca, salta ioiô”, o trem da Mangueira apresenta o artesanato e a culinária brincando com “Zé Bolo Flor”.
Quem comeu, comeu…
Quem não comeu,
Não come mais.

3 LOUREIRO, Roberto. Cultura, mato-grossense: Festas de Santos e outras tradições; p.136.
4 Um dos peixes mais saborosos do rio Cuiabá.

Ara! Deixa o defunto
Descansar em paz.
Na cerâmica e no traçado, como em todo o artesanato e no chão simples da rua que a vida chega pra se mostrar, se come, se bebe, se dança, a vida é uma festança em cada feira popular. Expõem nas janelas: redes, mantos, caminhos de mesa, cativando quem passa pra namorar ou comer um doce chamado furrundu, de sabor tão peculiar.
E olha que a criatividade não é pouca! Se não pega pela arte, nos seduz pela boca. Haja fome, meu irmão, o cardápio é indicado – nem falo da farofa de banana ou da mojica de pintado. Nem da paçoca de carne seca, muito menos do maxixe recheado – que, aí, seria um pecado. Em Cuiabá, a alimentação é sagrada: come-se de tudo, não tem conversa fiada. Duvido que alguém resista à cajuada, ao arroz de pequi, ou à saborosa cabeça de boi assada.
Estação: Festas de Santos.
Sob o “arco da iluminação”, aportamos.
Curandeira de mão cheia, “Mãe Bonifácia”, organiza o muxirum5 para início dos festejos. Redenção! Goza o povo de um amor à divina celebração. Fazem da crença uma confiança obstinada e, da reza, um canto em homenagem à Festa do Divino Espírito Santo de Cuiabá.
Com a pureza no olhar, pedem a benção a Bom Jesus, o padroeiro do lugar.
Em procissão, louvam São Benedito, como crença de sua devoção… Festeiros, esmolas, bandeiras, cerimônias do mastro, procissões fluviais enlaça-nos em tal predestinação. Depois da promessa, não há quem resista à tamanha tentação. Seguem os cortejos da queima de fogos e dançam quadrilha de São João.
Um momento precioso!
Dançam o “São Gonçalo”, como parte significativa da religiosidade rural, onde o santo é um deus infinito que lava as dores e enxuga o pranto.
Ecoa das violas de cocho, das batidas do mocho e do ritmo do ganzá, a genuína musicalidade cuiabana. No registro do saber, o povo se mistura num tempo puro e sem pecado. Na dança e no canto, quem gira chega dando seu recado – com o cururu, siriri e rasqueado.
Sucede que as festas de santo têm lá seus mistérios… Nelas misturam-se o laico e sacro numa simbiose natural – danças, rezas, músicas, brincadeiras e religiosidade. Inspirados, e bem na hora da partida rumo à próxima estação, chegam os mascarados com suas vestes coloridas, dançando em torno do mastro, o “trança-fitas”.
Estação: Portal do Paraíso.
Um momento: siga um conselho e tome fôlego antes de prosseguir. Pronto! Lá vamos nós! Há “tanta vida, tanta história, que não foge da memória a fonte de tanta beleza. É a terra, é a gente, é tudo aquilo que Deus criou e que se chama natureza”.

5 Designação local de mutirão.

Mareja-nos o olhar ao avistarmos um místico mosaico geometrizante: ferruginosas franjas das bordas dos desfiladeiros, misteriosas cavernas e inscrições rupestres reveladas em sítios arqueológicos, cachoeiras de águas cristalinas e até mesmo um casal de araras vermelhas sobrevoando o céu, fazem da Chapada dos Guimarães um louvor à obra do Criador.
Adiante, uma revoada de tuiuiús – ave símbolo do Mato Grosso – nos conduz a um passeio pela fascinante biodiversidade e à extraordinária vida selvagem do Pantanal.
Se alguém ainda acha pouco para justificar a alcunha de “Um paraíso no centro da América” a Cidade Verde ainda se dá ao luxo de ser o Portal da Amazônia!
É neste cenário paradisíaco, de odores edênicos, que a Mangueira canta e se encanta:
Glória aos teus tesouros,
Ao teu cintilante céu azul!
Bendita sejas, terra amada.
Cuiabá, tu que és do meu Brasil a pérola engastada
Em pleno coração da América do Sul.
Estação: Mandem lembranças ao Futuro!
Chegamos a nossa última parada e imediatamente uma negra esguia e defensora de nobres ideais ergue a voz e diz: Olhem pra frente e além dos muros, Cuiabá é uma cidade a caminho do futuro! É a “Maria Taquara”.
“O conto que a gente canta é a história que o povo faz”. Cuiabá reinventa-se como recanto laborioso de seu povo, o mesmo povo de espírito comunitário, que ficou isolado durante anos das principais capitais do país e tornou-se adulto, podendo ser criança. Da lembrança dos “quintais com Mangueiras”, de tomar guaraná ralado à beira de um córrego à sombra de um acopari, de soltar “pandorga6″, “finca-finca”, “busca-pé” e “trique-trique” com a boca suja de pixé7, erguem-se, nessa terra de sol escaldante, indestrutíveis riquezas, tecnologias inquestionáveis à frente de sua crescente economia.
Cuiabá é a “cidade das oportunidades” que se desenvolve combinando tradições com progresso. Desta terra emana uma energia contagiante… Feita, sobretudo, da confiança no futuro e do calor humano bordado na alma de sua gente. Todos juntos por Cuiabá: evidenciam a sua crença e preservam a esperança de continuidade de uma cidade que continuará evoluindo e atendendo às necessidades de todos os que vivem nela. Unida e de braços dados com a Mangueira, se orgulha e se prepara para receber o maior evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo de 2014. Multiforme e heterogênea, nos deixa o legado de que o futuro é aqui. Suplantada por “alegorias-indústrias” descobre a fórmula mágica para sua industrialização: a sustentabilidade! Não à poluição, compromisso desta nação.
O final da nossa jornada sempre será o início para os que têm sensibilidade.

Cid Carvalho, carnavalesco.
Marcos Roza, pesquisador de enredos.