Nascido no Rio de Janeiro criado em Ramos, Cleber Augusto (4/8/1950) iniciou sua carreira como músico violonista na década de 70. Influenciado já na sua adolescência por grandes músicos e artistas como: Manuel da Conceição, Baden Powel, João Bosco entre outros. Atraído então por ritmos genuinamente brasileiros, Bossa Nova, MPB, Chorinho e Samba, esses rítmos o levaram para os palcos da vida, onde teve oportunidade de montar uma banda com amigos do bairro e participar de festivais, quando numa destas participações, foi convidado a ser músico de uma dupla da Jovem-guarda (Lene e Lilian). Ao encerrar seu trabalho com a dupla resolveu cursar Faculdade de Arquitetura, deixando a Música em segundo plano. Se formou mais não resistiu, pois a arte musical realmente o seduzia. E no começo dos anos 80 ele volta com força e determinação definitivamente para o mundo do samba. Cleber Augusto se lança como compositor no Berço de Bambas do Cacique De Ramos por onde passaram e se consagraram vários autores e artista do nosso verdadeiro samba.

Cleber Augusto
Ouças alguns dos principais sambas de autoria de Cleber Augusto na “playlist” abaixo, ou cada samba individualmente no final do post, com suas respectivas letras.
- Minhas andanças (Cleber Augusto e Jorge Aragão; por Fundo de Quintal)
- Amor não é por aí (Arlindo Cruz, Cleber Augusto e Sombrinha; por Sombrinha)
- A Amizade (Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por Fundo de Quintal)
- Brasil Nagô (Cleber Augusto, Djalma Falção e Mário Sérgio; por Fundo de Quintal)
- Deixa estar (Cleber Augusto; por Dudu Nobre)
- Fera no cio (Bicudo, Cleber Augusto, Djalma Falcão e Jorginho Chinna; por Fundo de Quintal)
- Atalho (Cleber Augusto, Djalma Falção e Jorge Aragão; por Luizinho SP)
- Lucidez (Cleber Augusto e Jorge Aragão; por Beth Carvalho)
- Quantas canções (Cleber Augusto e Djalma Falção; por Fundo de Quintal)
- Nem lá, nem cá (Cleber Augusto e Nei Lopes; por Fundo de Quintal)
- Romance dos astros (Bandeira Brasil, Cleber Augusto e Luiz Carlos da Vila; por Fundo de Quintal)
- Guadalupe e Sulacap (Cleber Augusto e Nei Lopes; por Fundo de Quintal)
- Divina luz (Cleber Augusto, Mauro Diniz e Sereno; por Fundo de Quintal)
- Timidez (Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por Fundo de Quintal)
- Falso herói (Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por Fundo de Quintal)
-
Minhas andanças
(Cleber Augusto e Jorge Aragão; por: Fundo de Quintal)
Eu não sei o que é que eu vou dizer
Quando chegar, que o sol raiar
Você brigar, por me esperar, me censurar
Dessa vez coberta de razão, muitas vezes eu justifiquei
Porque tardei, por onde andei, o que passei e o que nem sei
Era fácil você me entender
Sempre tardei para chegar da boemia
Hoje bem sei, dos limites passei, folia
Entre umas e outras
Muitas conversas as soltas e sempre uma saideira
Assim foi a noite inteira
Hoje eu vou admitir que estou errado
No que passou vou me sentir culpado
Aceite as minhas desculpas por essas noitadas malucas
Tenhas um bom coração só peço compreensão -
Amor não é por aí
(Arlindo Cruz, Cleber Augusto e Sombrinha; por: Sombrinha)
Quando circular o matutino
Vou provar que o seu menino
Não é tão levado assim, ah…..
Olha que a gente só trabalha
E não é fogo de palha
Um pandeiro e um tamborim não…Amor, não e por aí, você vive a brigar
Vivemos na corda bamba,
Mas amanhã eu vou mostrar
E os jornais vão publicar meu novo sambaVai ser um samba que vai dar o que falar
Meu samba novo todo mundo vai cantar e vai gostar
E quando falar de amor, uma canção popular
Faz muita gente sorrir, faz muita gente chorar
Lá vai meu samba por aí a emocionar
Mostrando ao povo que ele veio pra ficar -
A Amizade
(Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por: Fundo de Quintal)
Amigo, hoje a minha inspiração
Se ligou em você
E em forma de samba
Mandou lhe dizer
Tâo outro argumento
Qual nesse nomento
Me faz penetrar
Por toda nossa amizade
Clarescendo a verdade
Sem medo de agir
Em nossa intimidade
Você vai me ouvirFoi bem cedo na vida que eu procurei
Encontrar novos rumos num mundo melhor
Com você fique certo que jamais falhei
Pois ganhei muita força tornando maior
A Amizade…
Nem mesmo a força do tempo irá destruir
Somos verdade…
Nem mesmo este samba de amor pode nos resumirQuero chorar o seu choro
Quero sorrir seu sorriso
Valeu por você existir amigo -
Brasil Nagô
(Cleber Augusto, Djalma Falção e Mário Sérgio; por: Fundo de Quintal)
Se mandarem me chamar eu vou
Sou brasileiro sou nação Nagô
Sou do sul sou do nordeste, chimarrão, cabra da peste
Sou valente eu sou paz e amor
Levo a vida do jeito que for
Alegria riso choro e dor
Eu sou branco eu sou negro viro o mundo pelo avesso
Tenho os pés no chão sou sonhadorVou à procissão do santo padre
Saio da igreja entro nos bares
Sob a proteção dos sete mares
Peço axé ao meu babalaô
Piano pandeiro ou viola baião rock samba nem dou bola
Tanto faz cachaça ou coca-cola
Se mandarem me chamar eu tô -
Deixa estar
(Cleber Augusto; por: Dudu Nobre)
Deixe estar pois é sempre assim
Você vive a procurar por mim
Eu que vivo a me preocupar pra dizer
Toda vida foi ilusão
As lindas noites foram pra encantar
Já era de reconhecer pra dizerParei com o sonho
Pois me vejo ao acordar tentando encontrar a paz
Mas deixa estar enquanto é tempo
Eu sinto agora em bom momento
É hora de reflexão
São tantas coisas que eu pude perceber
Tudo que você me fez
Hoje quero sorrir não acho graça
Saudade é coisa que passa
Quando se tenta esquecer
Toda vida foi ilusão
Com estrelas de imitação
Já era hora de reconhecer pra dizer -
Fera no cio
(Bicudo, Cleber Augusto, Djalma Falcão e Jorginho Chinna; por: Fundo de Quintal)
Bem que eu te avisei, viu
Foi bom esperar
Pra que tanta pressa se o rio
No final desagua no mar
Não há mais segredos, o medo fugiu
Depois das águas de março
Vem o sol de abrilBem que eu te avisei, viu
Pra não desesperar
A paixão é fera no cio
Não escolhe tempo ou lugar
Agora, nosso caso
Já pode vazar
Não vou mais embora,
É hora da gente se amarSomente o coração
Tem forças pra desafiar
(Coisas do amor)
A água, o fogo, a terra e o ar
(É bom sonhar)
Transformando em sonho
A saudade, o sorriso, a dor
O sol já se pôs
(Vem que eu quero te abraçar)
A lua é de nós dois,
(Nada vai nôs separar)
E o sol como a vida juntou
Eu, você e o amor -
Atalho
(Cleber Augusto, Djalma Falção e Jorge Aragão; por: Luizinho SP)
Faz um ano ou mais
Desde o dia que eu perdi o sono, a paz
Acho até que exagerei
Amei de mais
Mas agora, tanto fez ou tanto faz
Não quero mais, não volto atras
Agora eu já sei que o tal amor
Faz sorrir mas também causa dor
No início é tudo um sonho
Mas no fim
É uma voz dizendo assim:
Adeus, adeus, adeusSão as trapaças da paixão
Que trazem o choro e a solidão
Meu deus eu fico a perguntar
Se é para tirar pra que é que deu?
Se não é meu pra que que deu?
Se era pra depois tirar
Por isso eu preciso de um ombro amigo (pra repousar)
Um atalho que leva uma luz a um abrigo (pra descansar)
Guardar as lembranças que trago comigo (pra sonhar)
Pois o meu coração diz que amor valeu
Valeu, valeu, valeu… -
Lucidez
(Cleber Augusto e Jorge Aragão; por: Beth Carvalho)
Por favor
Não me olhe assim
Se não
For viver só para mim
Aliás
Se isto aconteceu
Tanto faz
Já me fiz por merecerMas cuidado não vá se entregar
Nosso caso não pode vazar
É tão bom se querer
Sem saber como vai terminar
Onde a lucidez se aninhar
Pode deixar
Quando a solidão apertar
Olhe pro lado
Olhe pro lado
Que eu estarei por lá -
Quantas canções
(Cleber Augusto e Djalma Falção; por: Fundo de Quintal)
Há quantas canções já fiz para esse amor
Dizem que sou louco um tolo sonhador
Canto para alguém que nem se quer vem me escutar
Os acordes do meu violão passeando em vão pelo salão
Procurando encontrar teu olhar
Mas minha voz não vou calar, eu vou cantar
Mesmo sem meu bem o show vai continuar
Quem dera que o som da emoção me fizesse voltarMas a voz do coração me diz
Que o meu sonho ainda vai ser feliz, pois é
Ei de ver você surgindo na platéia me aplaudindo
Me sorrindo e até pedindo bis -
Nem lá, nem cá
(Cleber Augusto e Nei Lopes; por: Fundo de Quintal)
Eu hoje estou igual
A esta cerveja deste bar
Nem gelada, nem quente
Nem bom, nem doente
Nem lá, nem cáGarçom
Me traz então um bom traçado igual a mim
Nem vazio, nem cheio
A doze meio a meio, assim assimHoje eu sou um laço
Que não ata e nem desata
Sou sustenido, sou bemol
Sou dia que não chove e nem faz solÉ, hoje eu estou assim
Eu hoje estou assim
Nem mal, nem bem
Nem mau, nem bom
Feito um samba cançãoÀ meia luz, num meio tom
Feito um samba canção
Nem samba e nem canção -
Romance dos astros
(Bandeira Brasil, Cleber Augusto e Luiz Carlos da Vila; por: Fundo de Quintal)
Sonhei que um dia
O astro rei à terra descia
Secava as águas do mar e não mais anoitecia
Só voltava a chover à noite e as estrelas
Se a lua fosse a sua companheiraIrredutivelmente ela dizia não
E saturno em vão ofereceu anéis
Ela nem ligava para a estrela dalva
Nem ouvia a súplica dos menestréisE o sol ficava mais e mais abrasador
Cego de amor, aí eu me queimei
No auge da trama eu caí da cama
O galo cantou, feliz eu acordei -
Guadalupe e Sulacap
(Cleber Augusto e Nei Lopes; por: Fundo de Quintal)
Guadalupe morava em Sulacap
Lá morava o Cabo Sula
Que queria ser um dia capitão
Cabo Sula com o seu rosto de bode
Era o tantan dos pagodes
E era o bambambam da fundação
Mais um dia em pleno Cacique
Ouvindo o repique, Guadalupe se baratinou
Ao som do banjo de Almir Guinéto carente de afeto
Pelo Ubirany se apaixonouGuadalupe com aquele ar lindinho
Dizia um pagodinho no ouvido do seu novo amor
Cabo Sula quando viu a fita
Passou a Chiquita na certa o sombrinha e sereno ficou
Mas na hora que escutou os versos
Num pagode em Bonsucesso
E todo seu balé
Cabo Sula deu um tremilique
E entrou no cacique ele e seu pajé
E saiu pela rua gritando
Eu não sou um qualquer
Eu não sou um qualquer -
Divina luz
(Cleber Augusto, Mauro Diniz e Sereno; por: Fundo de Quintal)
Clareou
No terreiro as cabrochas sambando, clareou
Quem gritou
Vai correndo buscar a viola meu sinhô
Se formou
Toda roda batendo nas palmas aclamou
Esquentou
Na panela a comida salgando temperou
E buscou
Na memória aquela história que escutou
Se lembrou
Todo o tempo em que teve sua glória, mas passou
Se alegrou
Quando viu sua vida colhida quando amou
Se inspirou
Cada instante naquele romance que marcou
Nem notou
No momento a passagem do tempo que voou
Se cansou
Pelos moldes daqueles acordes que tocou
Clareou
No pagode em terreiro de bamba
Pois pediu pra cantar mais um samba
Assim que o dia raiou -
Timidez
(Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por: Fundo de Quintal)
É esse brilho em seu olhar
Me querendo perguntar
O que vai acontecer
É pois é, só você pode explicar
Onde anda o meu olhar
É tão fácil perceber
Me mande um aviso
Me diz com sorriso
Se ainda é preciso, disfarçar, será?
Tanto faz ou tanto fez
Esbarrei na timidez
Tropecei na luz do nosso olhar
Me mande um aviso
Me diz com sorriso
Se eu posso de um sonho despertarSerá que o amor aconteceu
Será que é sonho meu
Será que o amor se deu
Brilha pra mim… -
Falso herói
(Bicudo, Cleber Augusto e Djalma Falção; por: Fundo de Quintal)
Eu já não poderia viver
Outra desilusão e ver
Ver mais uma paixão, morrer
Outra vez dar sem receberEu já não poderia viver
Outra desilusão e ver
Ver mais uma paixão, morrer
Outra vez dar sem receberMais um ponto final
Fim de mais uma história
De que vale me achar
Pra depois me perder
Meu amor falso herói
Leva fama sem glória
O que os olhos enxergam
O coração não vê
Não vê talvez por ter medo da dor
Coração teu mal é mal de amor
Eu não quero outro beijo mal dado
Esse amargo sabor
Não vou mais me perder em seus braços, abraços
De quem não me quis
Assim como eu já fiz
Por que isso não é ser feliz

Cleber Augusto
Depoimento de Mário Sérgio, parceiro de Cleber no Fundo de Quintal
“Durante esses mais de não sei quantos anos que nos conhecemos nos pagodes do Cacique e principalmente nos meus dezoito anos de Fundo de Quintal, digo que é uma pessoa especial, engraçada e amigo de todos. Cleber passou a ser componente do Fundo de Quintal no ano de 1983 no cd Nos pagodes da vida. Conheci o Cleber em Ramos, bairro onde eu morava no Rio de Janeiro, na área da Leopoldina onde se encontra o Cacique de Ramos e a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense e também coincidentemente o bairro onde Neoci morava. Depois de alguns anos Cleber se mudou para a ilha do Governador (onde também morei), onde morou por muito tempo. Muitas vezes no encontrávamos pelas bandas da Escola de Samba Ilha do Governador ou pelos próprios bares e botecos da Ilha, além dos pagodes no morro do Dendê e do Bananal.
Já conhecia sua família. Pais, primos, tios, amigos e principalmente seus irmãos que eram meus amigos de esporte de longa data, pois serviam na área de educação física da Aeronáutica e eu como atleta do Corpo de Fuzileiros Navais, ficava no CEFAN, e sempre nos encontrávamos nas competições de atletismo no Maracanã no estádio Célio de Barros. Em nossa vida de grupo, não me recordo de não termos passado um final de semana juntos fazendo shows pelo Brasil e tantos outros lugares e as vezes, essa semana começava a partir de quinta feira só regressávamos ao Rio na segunda pela manhã ou as vezes nem voltando.
Samba: Minhas andanças por Cleber Augusto
O compositor
Para se entender melhor o Cleber é preciso primeiro saber o que ele é e para se conhecer um compositor como ele, é preciso conhecer e entender as suas obras, as suas músicas.
E se você ainda não prestou atenção em suas letras, em suas melodias, e em sua interpretação, não irá o entender. Cleber é simplesmente aquilo que escreve em suas músicas.
Eu que ficava a poucos passos dele nos shows na mais duradoura formação do Fundo, percebia seus olhos com lágrimas ao interpretar suas músicas, pena que o público não tinha o meu ângulo.”
Mário Sérgio
Depoimento retirado do Site Oficial de Mário Sérgio.

Cleber Augusto